A Reforma Tributária mudou a regra do jogo: o imposto sobre o consumo deixará de pertencer à cidade que produz e passará a pertencer à cidade que consome. Este estudo mede, com matemática e 10.000 simulações, o que isso significa para um pequeno município industrial do interior paulista.
A Emenda Constitucional nº 132/2023 extinguiu o ISS (municipal) e o ICMS (estadual) e criou em seu lugar o IBS — Imposto sobre Bens e Serviços. Parece só uma troca de siglas. Não é. O que muda de verdade é o endereço para onde o dinheiro vai.
O imposto fica onde está a fábrica ou o prestador. Por décadas, isso alimentou a "guerra fiscal": cidades disputando sedes de empresas para engordar a arrecadação.
O imposto vai para onde mora o consumidor final. Quem produz muito mas consome pouco perde; quem consome muito mas produz pouco ganha.
Em uma frase: hoje o imposto nasce na chaminé da fábrica. A partir da reforma, ele nasce no carrinho de compras. E a transição completa vai durar até 2078 — meio século de adaptação.
Para testar o modelo, o estudo escolheu um caso-limite: Pradópolis-SP, na Região Metropolitana de Ribeirão Preto. Uma cidade pequena que abriga uma das maiores usinas sucroenergéticas do mundo — e que por isso tem tudo a perder na mudança de regra.
Explore o mapa real da região: Pradópolis e os polos que atraem o consumo dos seus moradores. Para navegar, use dois dedos no celular ou Ctrl + scroll no computador.
A renda disponível dos moradores — R$ 513,7 mi em salários, R$ 100,0 mi em aposentadorias do INSS e R$ 7,5 mi do Bolsa Família — é a nova base tributável sob o princípio do destino. O problema: ela é bem menor do que a riqueza industrial que sustenta a arrecadação hoje.
Ao abrir a "caixa-preta" da arrecadação de 2024, contribuinte por contribuinte, o estudo encontrou um grau extremo de concentração — e classificou cada real entre o que fica e o que migra com a reforma.
Somando a usina, suas subsidiárias e a logística que existe para escoar sua produção, o complexo exportador responde por ≈ 89% de todo o valor adicionado do município.
Dos R$ 2,57 mi pagos pelos 20 maiores contribuintes de ISS, R$ 2,05 mi vêm de serviços B2B para a usina (manutenção, caldeiraria, TI). Com o IBS, esse imposto viaja junto com o açúcar e o etanol — e é recolhido na cidade do consumidor final.
Na carteira dos 20 maiores geradores de VAF, R$ 22,6 mi de R$ 23,2 mi estão ancorados em produção exportadora e logística. O consumo local (energia residencial, telefonia, supermercados) sustenta apenas 2,4%.
Detalhe metodológico: a classificação não foi feita "no automático" pelo CNAE. O autor ligou e escreveu para cada grande contribuinte, confirmando se seus clientes estão dentro ou fora da cidade — um levantamento primário que dá lastro empírico ao modelo.
Primeiro artefato do estudo, o Índice de Vulnerabilidade na Transição responde a uma pergunta simples: que fração da receita atual do município está ancorada no modelo que vai deixar de existir?
Mais de 61% de toda a receita de consumo de Pradópolis depende de onde a produção acontece — não de onde os moradores compram. São R$ 24,66 milhões por ano com passagem comprada para outras cidades.
Se o imposto agora segue o consumidor, a pergunta-chave vira: onde os moradores de Pradópolis fazem compras? Para responder, o estudo usou um modelo clássico de geografia econômica — o Modelo Gravitacional de Huff (1964) — em que cidades grandes atraem consumidores como planetas atraem satélites.
É o destino de cada R$ 100 de renda gerada em Pradópolis sob a nova regra.
O segundo artefato, a Estimativa de Perda Líquida, coloca tudo na balança: de um lado, o que a cidade perde com a migração da base produtiva; do outro, o que ela ganha tributando o consumo dos próprios moradores.
Com alíquota baixa, o consumo local rende pouco e o rombo quase dobra.
A estimativa central: a cidade não se sustenta sozinha e depende do Seguro-Receita.
Apenas informativo: a CBS é federal e não entra no caixa municipal.
O modelo é deliberadamente pessimista. Ele ignora rendas de capital (lucros, MEI, arrendamentos rurais — o chamado EOB), porque não há dado público municipal confiável. Se essa renda invisível equivaler a só 15% da base atual, o déficit zera. Ou seja: os números são um teto de perda, não uma sentença.
Ninguém sabe a alíquota final do IBS, nem quanto o comércio local vai crescer. Em vez de chutar um número, o estudo roda uma Simulação de Monte Carlo: sorteia 10.000 combinações possíveis de alíquota, retenção, massa salarial e benefícios — e observa a distribuição dos resultados. Você está vendo essa simulação rodar agora, ao vivo, no seu navegador.
A moeda está no ar: 56,6% de chance de a cidade se sustentar sozinha, 43,4% de risco de déficit. O futuro fiscal de Pradópolis não é um número — é uma distribuição de probabilidades. E é exatamente isso que um gestor precisa enxergar para se planejar.
A descoberta mais poderosa do estudo: a variável que decide o jogo não é a alíquota (decidida em Brasília), e sim a retenção do varejo local — quanto do consumo dos moradores acontece dentro da cidade. E essa, a prefeitura pode influenciar. Arraste o controle e encontre o equilíbrio:
Atrair âncoras comerciais e serviços que capturem as compras hoje drenadas por Ribeirão Preto e Sertãozinho. Subir θret de 30% para 40% transforma o déficit de R$ 3,21 mi em superávit de R$ 3,93 mi.
No IBS, o CEP do comprador define para onde vai o imposto. Cada morador com domicílio fiscal correto é receita capturada; cada cadastro errado é dinheiro indo para a cidade vizinha.
Centros de distribuição têm fato gerador ancorado no local físico de expedição. A ferrovia que hoje só escoa açúcar pode ancorar uma nova base tributária menos dependente de um único setor.
100% da média histórica garantida
a garantia derrete 1/45 ao ano até zerar
a cidade vive do que retém
O modelo quantifica exatamente o hiato que esse colchão precisará cobrir — e por quanto tempo. O mundo já viveu isso: Mumbai perdeu o imposto Octroi (35% da receita própria) na reforma indiana de 2017 e mergulhou em crise de liquidez; o Canadá, com bases harmonizadas e cooperação federativa, fez a transição funcionar. O Brasil escolhe agora qual história repetir.
O estudo entrega o que não existia: uma ferramenta científica, replicável em 5 etapas com dados públicos, para qualquer município produtor medir seu risco antes da transição. "Precisamos fortalecer o comércio local" deixou de ser intuição — virou um número: θret ≥ 34,5%.